sábado, 31 de outubro de 2020

descer a Fonte Grande e ir estudar no Maria Ortiz foi um adeus doloroso porque eu queria sair do ciclo que fui criada no Anacleta mas não queria ir para aquela escola. eu não queria criar um novo grupo, não queria me inserir num novo ciclo frágil de amizades... tinha medo disso.  acho que a dor foi porque eu sabia que o adeus era inevitável, e a dor do encontro com o desconhecido.. ou com a certeza de que novamente seria violentada.  uma dor relacionada a estar sozinha. a dor de sentir na pele e no osso a qualidade inevitável da vida. o que era inevitável à mim não era a solidão, nunca foi. a solidão pode ser evitada, sempre soube disso. acho que a dor era em saber que construir vínculos é doloroso, difícil, incerto. na verdade eu não queria ir para lugar nenhum. eu não tinha lugar. eu era infeliz comigo mesma, meu corpo era rígido, contraido. quando eu sorria, eu colocava as mãos em minha boca. em meu ensino fundamental eu aprendi a contrair e no fim dessa escola eu fui arremessada no mundo que me exige a expansão. não havia meus vizinhos, primos comigo na sala de aula. não havia meus primos para me proteger. eu estava sozinha, estava sem os homens. e eu não era homem. nunca consegui ser homem. então eu estava sozinha. eu entendi que ser inteligente me ajudava em algumas coisas, então aprendi a olhar em silêncio, escultar com baralhos, escrever cansada e me comunicar. teve um dia que fiz uma redação e a professora de História perguntou se tinha sido eu mesma que tinha feito, porque no texto eu usei o ponto-virgula. comentei com minha amiga, orgulhosa disso.. sempre foi um prazer ver as pessoas se surpreendendo comigo, com a minha inteligência. essa professora era branca ruiva, de história. a vida colocou a filha dela na mesma turma de psicologia. estudei com aquela desgraçada na faculdade... com a filha da professora branca que se surpreendeu com minha inteligência. ela continuou se surpreendendo comigo durante todo o ensino médio. apresentei um trabalho sobre Malcon X, no ano seguinte ela pediu para eu orientar os alunos dela da turma anterior a minha, ela amou essa apresentação. eu também. meu primeiro namorado também se surpreendeu com a minha escrita. antes da gente namorar, éramos amigos. ele me queria e eu queria ele. nessa amizade ele elogiou minha inteligência em saber diferenciar A de HA. foi engraçado e me fez bem. eu gostava de surpreender porque tinha o prazer de ver as pessoas sendo deslocadas da imagem que fizeram de mim? ou eu gostava de causar essa confusão que eu mesma sentia comigo mesma? acho que as duas nunca deixaram de acontecer. 

eu comecei a escrever esse texto porque estou ouvindo musicas que me fizeram lembrar de minha formatura. na formatura nenhum de meus amigos e amigas do Maria Ortiz estavam. apenas eu fui. me formei sozinha, junto com pessoas que eu detestava. me formei sozinha. olhava da sacada do Maria Ortiz e me perguntava "porque vocês não vinheram? "eu estou aqui, porque vocês não vinheram por mim? ", "eu estou aqui por vocês". Experimentei novamente o sentimento de abandono. Eu amava aqueles meninos e meninas. um de meus amigos de ensino médio rompeu comigo, deixou de falar comigo... depois de 5 anos encontrei ele numa festa e ele me agrediu verbalmente. ele é bissexual, ou gay ou sei la.. negro como eu. soube que agora ele faz uso de medicamentos para depressão ou ansiedade... não sei qual adoecimento ao certo, sei que acompanhei um pouco disso no ensino médio. passei o ensino medio todo sendo a única bixa entre minhas amizades. quando o ensino médio acabada, todos os meus amigos se assumem gays. novamente sozinha. o abandono... o rompimento, adeus.. sei la. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

 eu aprendi a encontrar minhas amigas com a meditação. sei sentir nosso vinculo sutil. nossa alma interligada. aprendi estando longe delas, porque estar longe me faz ter coragem para me sacrificar ao encontro. então fico buscando formas de encontra-las estando longe. e criei varias dessas formas. agora eu quero fazer o caminho de volta. quero encontra-las pessoalmente, em carne e osso. quero sentir o osso e carne. quero encontra-las, abraça-las, beija-las, sentir sua temperatura. eu fiz amizade em todo o Brasil. mas nenhuma substitui minhas amigas de espirito santo. nada substitui nada. mayara, roger, rodrigo, eva, dora, laura, marcela, julia, natan, thais, gabi, mateus, minha irmã lara, minha sobrinha iris... renato santos. sim, é uma saudade dos meus amigos e amigas. é isso, uma saudade cotidiana. uma saudade de um cotidiano que ja vivi e do encontro que ainda posso viver com magno...  

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

 há 4 meses atrás eu fazia 24 anos. eu me dei de presente dreads, e sonhei com o formato que estou hoje; sem extensões feitas com cabelos de pessoas que desconheço. agora as vezes me imagino careca, sem cabelo. me imagino nascendo de novo e não tenho medo. mas tenho preguiça, cansaço, me pergunto: será que quero ter essa força? mas sou filha de Exú, e não posso ter querer. ainda sim, quero descansar, e depois decidi o que fazer. porque ja sei que vou continuar, e sei que desejo continuar. sei que o sacrifício sera feito, porque eu amo me sacrificar. quero esta preparada para isso. quero esta descansada para gozar com o sacrificio. cheguei num nível dificil. esse ano fui para alemanha, morei em Berlin por 10 dias. quero ir pra vitória, construir meu local de descanso. tenho insegurança.. medos de cometer os mesmos equivocos que meus pais e padrinhos sofreram em suas construções na fonte grande, mas não há culpa... a colonialidade é a responsável pela evasão e minha volta é um desejo meu. um desejo meu. eu construi esse desejo. estou construindo coragem. e quero o descanso... 

serei novamente filha? tenho sonhado com minha mãe nesse ano... serei novamente filha? ou serei mãe? 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

 Todos os filmes foram produzidos no Espírito Santo, e essa será a primeira exibição,em festival, dos curtas O Trauma é Brasileiro e Lembrar Daquilo que Esqueci. Essas três obras são desdobramentos de minha pesquisa acerca das tradições Bantu que acontecem no estado, especialmente no Morro da Fonte Grande e na Ilha de Vitória. Experiências e assuntos  como o segredo/mistério, o tempo espiralado, a travestilidade, a escuridão, a negritude, as memórias da transfiguração, a macumbaria, são alguns dos pilares que organizam e desorganizam essa pesquisa estética-clínica que tem sido feita através ( entre outras linguagens) da produção de filmes.  

As três obras foram produzidas de modo independente, tendo a equipe técnica formada completamente por pessoas racializadas e dissidentes de gênero e sexualidade.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

 um despacho pra exu e uma oferenda à pretos velhos, isso que sou. sou um o comprimento de um sonho e o resultado de uma imaginação: a liberdade. meus bisavós sonharam com a sua liberdade e construiram possibilidades para isso. sou a liberdade. sou resultado desse senho. sou o que continua o sonho. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

 Eu fico vidrado na tua luz, no teu sorriso lindo. Vc é perfeita, é um grito e um milagre. Aliás, ontem revisitei o Trauma é Brasileiro. Viva o ebó epstemológico de macumbaria e travestilidade. Vc é incrívelmente incrível 💜

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Hoje cedo eu arrenquei meu coração deste corpo que não o merece. Este corpo que o sobrecarregou, que extrapolou a capacidade de absorção e filttração de emoções desse orgão, que agora descança em meu colo.

Ao ser arrancado deste peito, meu coração sangrou lágrimas. Chorou sangue. Se fez carne suja de ressentimento e cansaço. Foi então que eu o levei para um banho de ervas. Usei arruda, guine, alfazema, malva e hortelã. Mas não foi suficiente.


Precisei abrir meu coração e o intupir de sal grosso. Ainda havia sujeita escondida em suas dobras interiores. O sal então as engoliu, revitalizando meu coração, mais o transformando em carne seca, rigida, protegida por uma grossa camada de aprendizado e medo de ser novamente judiado.


Agora eu o idrato com minhas lagrimas de audades e superação. Em meu colo, essa carne se molha de amor. Descança, e aos poucos se amolece novamente, para consegui voltar a este corpo que sobreviveiu a um amor que nao foi reciproco.


segunda-feira, 31 de agosto de 2020

O diabo




- ai me perdi... 

-você estava falando de ter medo, sei la.

- ah sim, é... to perdendo o medo da imprevisibilidade. 

- ta vivendo o tempo espiralado? 

- não sei. Essa binaridade de "linear ou espiral" é uma merda. 

- nós não somos binárias mesmo sendo femininas... digo, nós travestis. Não somos homens nem mulher e bla bla bla. Senti isso... lembrei, sei la. Acho que tem a ver com frequência também, né?

- travesti é um gênero, nada mais. Um gênero! 

- sim, e foda-se. To dizendo da frequência do nosso corpo transfigurado. Ou, da frequência que possibilita nossa transfiguração. 

-hum. eai amore? 

- então não to falando de gênero... mas to falando especificamente de nós travestis. que confusão! porra, que difícil dizer sobre nosso corpo. 

- pois é, a merda é essa. a língua que a gente se comunica é uma desgraça. To tentando falar COM o corpo. Sei la também 

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

- eai, me conta como foi!

-não sei se consigo; é inexplicável, minha avó diz que....

-então porque você voltou? 

- sim eu decidi por isso, mas as vezes me arrependo... ou me canso demais, sei la. 

-  é, eu estou perdendo o medo de sua morte...

- e eu de ser inexplicável também... 

é inexplicável.. por isso crio lembretes e convites à mim mesma. Eu não tinha medo... subia um troço em cima de mim e por dentro de mim... Eu quanto mais eu me esquecia mais eu me lembrava que daqui ja não mais sou. 
- se você chegou aqui, é porque  você passou por vários ciclos.
- sim amiga... 
eu lembrei de meus vícios e esqueci de ter medo deles. 
- nossa, me emecionei muito. sou feliz por ja ter te encontrado nessa vida amiga. Somos uma família. 
-sim amiga, a espiritualidade me disse sobre um prazer... 
-a vida tem que ser prazerosa. 

terça-feira, 11 de agosto de 2020

 Escrevo sobre aquilo que entidades me cotam, algumas coisas eu compartilho outras eu guardo segredo. Escrevo com medo, com preguiça, com raiva, com vontade de desistir. Ai depois eu sinto prazer... as vezes durante também. Mas é sempre muito cansativo. E na leitura não é diferente... ano passado comecei a ler A Parabola do Semeador... precisei de 6 meses para ler metade do livro. Depois demorei mais 3 meses para consegui tocar nele novamente e dar continuidade a leitura, ai quando terminei fiquei feliz e desde então estou supreendida com o poder da obra de Octavia Butler em minha vitalidade... ela me redireciona, me puxa, me larga... 

Mas nunca senti medo de Octavia ou de Jota. Medo não há, e muito há a segurança de que não preciso ficar me explicando muito para me comunicar. Elas me ensinam a comunicar-me. No inicio de minha transição de genero eu lia muito Jota... a escrita me ajudou a criar Castiel. Ler Octavia me ajuda a abandonar Castiel... que é o abandono da nomeação... tornar-me inominável, insôndável, imprevisível... 

As duas ficcionam, e penso que ficcionar é manipular muito bem essa linearidade que nos constituem.  Da linguagem Portugues eu não espero nada além do que ela pode me oferecer: o mundo amaldiçoado. Mas as altoras me ajudam a usar a palavra como ferramenta de convite... me ajuda a criar convites e lembretes para se perder na Kalunga; lugar onde as formas se diluem e onde a força vital  toma o lugar da raça.  

terça-feira, 28 de julho de 2020

Se a macumbaria preexiste ao Novo Mundo, e aqui persiste enquanto Memórias da Transfiguração, lembradas e cultuadas em nossas fisicalidades e arquiteturas. Se a macumbaria existe antes da fotografia, da televisão e da internet, então não há nela uma dependência aos veículos comunicacionais que sustentam a temporalidade linear, mas sim, existe uma relação acontecendo porque macumba é movimento feito em terras, mares, rios e céus amaldiçoados pela comunicação que nos anuncia a morte do esquecimento! 
Macumba é movimento que gera energia e energia que gera movimento. Meu encontro virtual com minha amiga Ventura Profana alterou o campo energético de minha casa e nossa conexão invisível provou que a internet não é a nova roda mas sim incompetente em sua falsa promessa de dar visibilidade.
Porque, a invisibilidade de nossas conexões macumbeiras já nos era uma realidade tecnológica; não virtal, mas carnal. Quando nos comunicamos pelo olhar, e mesmo no escuro, no apagão, acessamos uma a outra e reafirmamos nossa persistência de continuarmos juntas. Afirmamos a incorporação uma da outra. 
Se de fato somos espiritualizadas, nossa energia nunca será suportada pelo wifi.
Mas, isso é o nosso mistério. Porque ainda assim nos tornamos visíveis aos olhos da contemplação que pouco conseguem nos encontrar no apagão; e nem devem.

domingo, 26 de julho de 2020

Ontem 02:20

olha, eu nao botei mt minha voz pq fico recuada nos encontros virtuais, me limitam em algm lugar esse registro “nao presencial” q n tem ali a carne emanado calor, o respiro o toque né...mas sinto q ultrapassamos ali a frieza da tela, estou mt tocada atravessada por td q foi implicado ali, por essa espiral q mergulhamos. porra sou mt admiradora de seu trabalho de todas as suas perambulancias compartilhadas. foi um alimento sagrado esses encontro, agradeço por torna isto possível! torcendo sempre por ti,compartilho todo carinho amor e luz pros teus caminhos! e eu amo seu sorriso, uma delicia! te sinto. bejao!🦋❤️

sexta-feira, 17 de julho de 2020

a palavra Travesti tem uma longa história que me antecede e me constitui porque Travesti é a palavra usada para nomear transmutações da carne e do espirito que acontecem nesse planeta antes mesmo da palava Travesti existir.
A transfiguração antecede a palavra, porque o corpo antecede qualquer linguagem criada na encarnação, mesmo que a linguagem crie corpos.
Então, a palavra Travesti antecede as nomeações Queer no Brasil, e desde sempre aponta para transmutações que hoje são traduzidas como Queer. Mas Travesti não se traduz; assim como Bixa e Sapatão também não. 
Por isso estudo, compreendo, respeito e modifico a história da palavra e das existências Travestis.
Porque no Brasil a monstruosidade só é opção pras pessoas brancas. Sou negra, nasci monstra.
Então como é possível abdicar de uma coisa que nunca tive (a humanidade, a normalidade ) ?
A Beleza Travesti é a beleza da Transfiguração. Então é a beleza fenotípica e espiritual.
Olha, eu não trabalho com a categoria Queer nem com a Mulher.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

sim, nós ocupamos o vazio com a fala, que é líquida, que escorre Kalunga, os momentos de silêncio são mais importantes, esses suspiros também, por isso sinto você
agora, a você travesti de coragem, não tema a vastidão da falta, você risca algo tão marcante em nossas encruzilhadas que a futuridade dirá o quanto é importante confundir a fala academicista que não assenta o desvio
Foto do perfil de r__horacio
você tem fome de dá passagem a esses universos, fome de transmitir conhecimento, nos juntamos em mesa farta e mergulhamos

sexta-feira, 26 de junho de 2020

parabéns! seu podcast tem me ajudado em tempos de descoberta, caos e começo de uma possível cura
[07:57, 26/06/2020] tia tati: Q lindooooo
[08:05, 26/06/2020] tia tati: Casti, q neste dia tão especial que é seu aniversário,  só podemos mesmo agradecer a Deus pela sua vida, pela proteção através de nossas orações,  pela sua saúde . Vc é uma estrela q brilha,  é meu grande orgulho, meu grande amor é graças a Deus hj estamos juntas para celebrar sua vida. Te amo, mais q demais ❣❣❣❣💖💖💖💖💖😍😍😍😍
papai: Parabéns, muito sucesso, alegrias, realizações e tudo o de melhor pra vc "CASTIEL" te amo😘👏🏾🍀
[11:25, 26/06/2020] Marcela Trava: O CLARCKBOOM DE HOJE VAI PRA NOSSA PRIMA DE GÊNERO, NOSSA AMIZADE DE ANTEPASSADOS: CASTIHELL VICTORIA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
[11:27, 26/06/2020] Marcela Trava: Parabéns, minha irmã de silicone industrial, que dandara sedução te preserve e te direcione nos melhores caminhos acadêmicos e pessoais possíveis, que não te falte aqué pra bombar o quadril e nem libido pra deixar a neca disfórica odara. A senhora merece tudo dje bom e maravigoldness nessa empreitada macumbeira e psicóloga. Te amo, te mamo e te desejo o mundo inteirinho. Feliz niver, garalhun!!!!!!!!1
4:32 PM

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Esse desejo que algumas negritudes brasileiras tem de querer uma relação interracial entre brancos e negros, onde o branco esteja disposto a construir pra si uma vulnerabilidade perecível e vive-la quando achar que deve; como tem acontecido nos EUA. Porque de fato essas pessoas brancas só se colocam na linha de frente porque sabem de sua segurança no sistema racial. 

-Revolta da Chibata. 
-Revolta da Vacina 
-Insurreição de Queimado
-Revolta dos Malês 
-Quilombo dos Palmares
-Quilombo do Jabaquara 
-Quilombos em São Matheus. 
-Quilombos no morro da Fonte Grande

Porque ainda se perguntar pelas pessoas brancas enquanto fazemos nossas fugas? Ou melhor, o que fazemos com as informações que acessamos quando descobrimos onde estão essas pessoas brancas enquanto fugimos? 
Parece que no Brasil, a racialização nos faz reféns de querer fugir com quem ou aquilo que deseja nos matar...
Há quanto tempo se experimenta o fracasso brasileiro de importar modos estadunidenses de se revoltar? O ano é 1791, o que acontece no Brasil enquanto inicia-se a Revolução Haitiana?
E hoje?   

quinta-feira, 28 de maio de 2020

o momento de agora é novidade para nós que o vivemos, mas para Exús, o sol e a Lua, é apenas mais um acontecimento que anuncia a demanda de mudar. Porque estamos numa encruzilhada. Transfigurar, transionar, transmutar o modo em que nos encontramos. Ou seja: criar outros jeitos de incorporar. Muitas gracias @bi_xarte . Amo incorporar você ♥️

terça-feira, 5 de maio de 2020

Caso esteja por vir, eu preciso te dizer que não irá me reconhecer ali no limite do frio e do calor que me deixou, porque eu aprendi a viver nesse vai e vem e hoje já nem estou mais binária, e sim hibrida dessa polaridade ritmica, temporal, espacial. Há tempos eu amo o sabor agridoce, mas tem pouco tempo que estou aprendendo a amar essa dinamica de estações que acontecem em mim. sair de uma cindade nublada às 8h da amanhã e chegar em outra super ensolarada às 14h da tarde me ensinou a aceitar que no meu corpo há tudo isso e o que preciso é continuar fazendo escultas intuitivas daquilo que meu corpo pede como temperatura.

Mas, se estou com frio estou triste e se estou com calor eu estou relaxada, então para relaxar antes precisei me aquecer do frio. Eu me aqueço me abraçando, tocando todo meu corpo, toda minha existência. No frio, faço de mim um casulo ou uma borboleta cansada de voar. Não sei o que é minha mãe. Mas acredito nela como acredito na vida. Acredito em Ingrid Teixeira Vitorino como um expressão vital unica de uma infinidade que é a vida, e sendo ela expressão de vida, logo também se expressa numa efemeridade e imprevisibilidade que tanto amo e me amedronta. Faz 10 anos que minha mãe fugiu, foi embora, nos abandonou sem deixar rastros. Mas, fez de mim um rastro que a persegue enquanto aos poucos vou embora para um tempoespao em que ainda não sei nomear. Agora sou travesti e mãe de santo. Serei uma mãe como minha mãe? que foge deixando rastros que na verdade são pistas para chegarmos à sua coragem de dar adeus...

Eu ja tive vergonha de ter brasileiro como sobrenome, e usava apenas o vitorino. Mas entendi ser preciso futucar a memória familiar, então criei O Trauma é Brasileiro. Meu trauma também é Vitorino. Mas não faço do trauma uma prisão, mas uma encruzilhada. Faço de minha vida um trauma ao colonialismo, e o colonilismo faz em mim seus traumas. E se faço, eu crio. Sou criadora, sou Exú e Pomba Gira. E também sou cabocla. por isso sou castiel....

Porque quando morei na boca da mata, me fazia bastante frio. O sereno sempre acontecia todas as noites, mas eu o amava e ainda o amo. O frio umido, que me faz ter calor.  Um frio que me faz ter calor. Sou cabocla porque as matas são frias, e sou pombagira porque exú me faz ter calor.
No omolocô eu aprendi sobre quando exú entre nas matas. Eu sou essa, aquela feita de calor e frio. Feita de duas mães e dois pais. Sou o quinto elemento então, aquele em que tudo há e nada mais se há pois o que havia ja é outra coisa.

Fiz de minha mãe um caminho possivel para eu continuar acessando a imprevisibilidade da vida. E 10 anos após seu sumisso, quando ela aparece, sou surpreendida. Ela estava fudida, e eu esperava uma mulher negra feliz. Mas não foi esse o pacto que eu criei comigo mesma: de viver na impossibilidade de abandonar a imprevisibilidade que é nossas vidas?





sexta-feira, 1 de maio de 2020

se desfazer da forma, olhar a ferida, abandonar a casca. voar
me desfazer da forma, perdoar a ferida, mastigar, beber.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

notas sobre passabilidade

aproveitando que travas e mulheres trans branquelas estão dizendo por ai que devemos alguma coisa para travestis que no passado foram "passáveis", quero dizer:

- desde quando o corpo feito por bombadeiras é assimilado pela sociedade brasileira como um "mulher cisgênera" ?

-não devo absolutamente nada à nenhuma gata que é confundida com mulher cis. Eu devo a minha vida à Lacraia, Cris Negão, Tibira, Xica Manicongo. Não devo nada ao delírio de cisgeneridade que algumas gatas desejam viver e vivem.

-"travestis passáveis;' não abriram a mim caminhos de sobrevivência com sua passabilidade, porque eu não sou nem quero ser lida socialmente como uma mulher cisgênera. Eu sou travesti. Quem abre caminho pra mim é aquem sobrevive não sendo confundida como uma mulher cisgênera.

-não chame de "dar close" a falta de acesso ou não desejo de querer ser cisgênera. A modificação corporal sempre acontece nas travestilidades. Nossa "desconformidade" ou "impassabilidade" não é de agora. Isso é ser travesti. Acorda!

terça-feira, 28 de abril de 2020

lembro de minha mãe ter dito que eu e lara nascemos invertidas. era pra eu ter nascido mulher e lara homem. essa imagem de lembrança é que que guardo com mais carinho de dela. me alimenta de coragem. faz pelo menos 10 anos que não vejo minha mãe em presencialmente, nem em sonhos. semana passada sonhei com ela, durante os ultimos dias de lua minguante ou primeiros dias de lua nova. sonhei que ela voltava com 40 anos, a idade que ela tem hoje, e me dizia: o que você queria? ou eu me prostituia ou ele me matava. Ai ela fugiu. ela desapareceu na vida real. eu eu fiquei com muita raiva no sonho, porque ela volta com aparência acabada. fico com raiva porque eu sempre desejei a imaginei em prosperidade. vivendo uma prosperidade...

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Quando nós, travas macumbeiras, falamos de “hormonização natural”não estamos dizendo sobre experiências e expectativas de  modificação corporal que muitas de nós suprimos com a hormonização feita com a ferramentas da industria farmacêutica

a hormonização natural/vegetal/sutil atua em nosso corpo espiritual/energético/sutil/invisível.  Um corpo que coexiste com nosso corpo físico: aquele em que  colocamos silicone, colamos o evra, aplicamos perlutã,  temos trombose...
Hormonização natural é: benzimento, garrafada, tomar passe, fazer despacho, tirar cartas, jogar buzios, tomar tintura, chá, fazer guento, fazer pomada, fazer preceito, praticar meditação, acessar e expandi nossos chakras,  deixar a alimentação mais saudável..


Veja, tudo isso a cisgeneridade sempre acessou para combater seus problemas de raça e gênero. por exemplo: casais cisgêneros que desejam ter filhos mas não conseguem (garrafadas e promessas para fertilidade), problemas de autoestima e segurança causado por um relacionamento abusivo... problemas com o luto pelo fim de um relacionamento ou morte de amores. 
Para tais demandas existe a medicina, psicologia, poder judiciário... mas o que a cisgeneridade sempre fez foi equilibrar as ferramentas mundanas(estatais) com as espirituais, pois sabem que não há separação e sim uma sobreposição das camadas espirituais e carnais de nosso problemas.

então, com a hormonização natural propomos acessos à  essa complexidade de nossas existências em Transmutação Travesti. Acessos que são autoconhecimento. Perceber como as fases da Lua influênciam em nosso tesão assim como sabemos que bloqueadores de testosterona também fazem isso...
Pois, se na macumba cultuamos nossas ancestrais, é porque acreditamos na integralidade dos tempos, dos elementos e dos corpos: nossas existências em forma espiralada.

Mas também sabemos que "homonização natural" é só uma forma limitada de dizer/escrever ( porque a palavra é sempre um limite) sobre nossos procesos de Cura Travesti.

Enfim, ouçam nossa conversa!
bjokas

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Quando virei benzedeira perguntei para um ogam: existe benzedeira travesti? Ai ele me ensinou sobre a inexistência da tradição. Estou pensando até agora sobre isso, porque até hoje dizem que eu não existo. Mas na ultima lua minguante, me senti velha e sonhei todos os dias sobre minha juventude que ainda não acabou. Tenho vinte três anos, e durante sete dias parece que revivi todos esses dias. Tive dificuldade para assumi que acordei, e me forçava a voltar a dormir, mesmo sabendo que nos sonhos eu não descansaria. Era pra eu ter usado o óleo essencial de bergamotta pra me ajudar a despertar, mas sempre me esquecia. Parecia que ao acordar eu me despedia ou me reencontrava com a morte. E essa dança foi se fazendo no meu corpo cansado, onde aqui o que mais havia era vontade de fim. Terminei um texto importante do mestrado. Antes de ser psicóloga e artista, fui uma criança que aprendeu a ler e escrever com muita facilidade. Hoje estou lendo aprendendo a ler a lua para escrever sobre o "Sagrado Feminino de Merda". Sou canceriana, criada por uma avô canceriana, junto com uma prima canceriana. Vazemos aniversários em 21, 24 e 26 de junho. Ai eu cresci ouvindo que minha avó tinha me criado como uma menina. Mas eles erraram, porque o que me tornei foi uma travesti. Então é isso. Durante a lua minguante, senti essa merda sendo jogada fora e virando adubo. Foi difícil, mas sinto que consegui adubar.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

vovó Julite minha beija flor
me de noticias do meu amor
eu fui embora mas aqui estou
vovó julite, minha beija flor

vovó julite minha beija flor
trago noticias do nosso amor
fui pra são paulo, sei aonde estou
vovó julite, minha beija flor

Desde criança você me criou
hoje sou trava, ele transmutou
e o nosso laço nunca se findou
vovó julite, minha beija flor


Exú é uma perambulação feita com pés que são patas. Exú é esse vai e vem 

segunda-feira, 20 de abril de 2020

é eu tenho achado varios meninos bonitos.
perdi o medo de ver beleza em outros homens que nao fosse meu namorido kkkk
eu tinha medo de me apaixonar... e acabei me apaixonando por outras belezas. e nao tem nada demais nisso kkkkk aiiii
kkkkk escrever isso me faz rir muito.
porque gente, o que perdi foi as coodernadas do amor romantico ne.
q merda!
mas precisei voltar e editar esse texto pra REAFIRMAR que meu pretinho é o homem com a beleza que mais amo nessa vida! kkkkkk merda!
que modo de me sujar é esse?
ou, que modo de lidar com a sujeira é esse que me faz ter medo de sujar meu baralho? sujar de que sujeiras emocioanais.
é porque meu baralho é uma ferramente muito importante pra mim, que me acalma e nao quero contagiar ele com minha raiva. nao quero!
mas se ele me cura, ele me limpa e me suja de bons afetos e sentimentos..
que isso?
nao sei
sera que é sobre coragem de ser sujada pelo baralho?
que sujeira é essa que nao me deixa tocar em meu baralho?
quando estou suja nao gosto de tocar em meu baralho.
quero escrever e ja estou escrevendo com meu meu terceiro peito ardendo. vou chamar essa area de terceiro peito, mesmo que também seja uma ferida que fica em carne viva quando ficou estressada e guardando stress. minha vó julite sempre fala isso mesmo, de guardar stresse. sei la...
por falar em minha avó, parei pra pensar sobre mim e meu amigos artistas que tanto valorizam nossos avós. passamos os ultimos anos afirmando a importancia de suas velhas palavras para consegui construir novos tempos. o novo tempo agora chegou. se anuncia. e se sinceramente se eu fosse avó eu estaria cansada de ajudar minhas netas. hahha
neste sentido, a dor do meu peito é de um corpo que esta em transmutação. estou transmutando e aprendendo a lidar com o sentimento de raiva, nao querendo transformar raiva em rancor... mas preciso acessar a raiva! mas é tao dificil acessar a raiva aqui em sao paulo, porque tenho medo de expludi e nao ter como catar meus cacos de vidro. e também ja nem sou um vidro transparente... ja quis ser ou ja me fizeram querer ter essa transparencia de ser visivel por todas. mas agora nao quero mais.
entendi que sou escura e contraditória. sou esse vidro que quando poca, deseja que... nao sei...

o que desejo com a raiva? esses dias sonhei que eu era um vulcão e que eu era harrt poter dentro de vulcão. e eu não estava com medo da raiva no sonho... conseguia controlar. o que fazia era deixar ela acontecer! mas como deixar? na vdd ela ja esta acontecendo... mas como lidar com a larva do vulcao que sou eu? tipo, se sou o vulcao eu mesma crio a lava e e a lava cria seu proprio caminho! é isso.... deixar a lava criar seu proprio caminho. mas como assim?
como seria isso?
amanha tenho psicologa e vou falar com ela sobre isso!

sexta-feira, 17 de abril de 2020

[23:02, 17/04/2020] roger gill: Amo todas que você foi, amo todas que você será.
[23:03, 17/04/2020] Castiel: eu tb amiga

[22:58, 17/04/2020] roger gill: A vermelhidão da tua carne é para mim como o roxo do espírito. Bruta é a água que jorra da tua fronte. Brando é o caos que sai da tua boca. Canta teu ponto e sobe dessa terra. Não. Fica. Eterniza teu corpo na carne da terra. Teu corpo é teu nome. Teu nome é a tua vida.

acabei de ver um video de uma amiga retinta que não encontro faz um tempo. hoje sou travesti, mas na época que eu a encontrei eu era outra coisa. nos encontramos pela cor, hoje travesti eu me sinto insegura em encontra-la.... talvez não de encontra-la mas de como sustentar o encontro. tenho tido isso com pessoas negras, percebido que minha travestilidade é um problema ou eu faço dela um problema. não sei até onde é minha insegurança e onde começa a travestifobia de minha negritude travesti. as vezes sei, mas agora não sei. agora e em outros momentos também. ai eu fico pensando em encontrar mais travestis pretas, mas encontra-las por ser travestis e negras não basta. enfim, me da vontade de acampar la na Torre da Fonte Grande e ficar la, vivendo o escuro e o silêncio da mata que nunca se cala. tenho vontade de levantar uma barraca, levar comida e agua, e passar a noite la. tenho vontade de ser 00:00 e eu estar acordada na escuridão, olhando para o céu e para os lados, sentindo medo e tesão. tenho essas vontades, de enfrentar meu medo do invisivel... da escuridão. tenho essa vontade de viver o medo e deixar ser tomada por ele até o medo ser incompativel com meu corpo.é essa minha vontade...

quarta-feira, 15 de abril de 2020

olhei e lembrei de quando eu gabriel e sonhei com o momento que enquanto gabriel eu sonhava em ser castiel e percebi que esse sonho me foi estranho porque o voltei ao passado que nunca existiu para te cumprimentar com uma aparência que ainda não tenho: peitos.

sábado, 11 de abril de 2020

Enfiei um cristal Quartzo Rosa no cu e na piroca., porque agora sei como é possível redirecionar minha energia sexual para a Cura Travesti: é através do amor pela verdade, e é pela coragem que acessamos a ventania que mora em Anahatta; aquela que espanta o medo de mim quando percebo que já não sou mais a mesma.

...durante a 4º semana de quarentena no Brasil.  
se é tempo de minguá, por favor, tranforme meus pulmões de homo sapiens sapeiens em branqueas e guelras. quero ser peixe nesse momento, porque sei que agora o tempo se faz no fundo do mar. eu não sei nada como antes, e antes eu nadava com o medo e fome. hoje vocês me deram um banquete, e me fizeram gorda como a lua cheia. na lua cheia eu gozei um gozo que nunca tinha vivido antes, foi um gozo fruto de verdade. ou, a verdade fez de mim um fruto suculento como uma ameixa. Meu cu tem a cor da ameixas que namoro sempre que foi ao supermercado durante essa Quarentena. O virus Corona-19 é o menor dos meus problemas, não quero falar sobre ele porque se escrevo ja estou falando com ele.  Esse virus ja esta organizando minha outra maneira de ver a vida. Então, volto e a dizer sobre o preenchimento que a coragem fez em meu corpo. enquanto o Mundo se acaba eu só penso em colocar peito. E a lua colocou em meu peito coragem. Preencheu-me de coragem, transformou meu corpo. Eu virei travesti quando entrei pra macumba. Não nasci travesti, mas a travestilidade pra mim é um modo de ser novamente um corpo que não tem medo de se transmutar... um corpo curioso. E a lua me deu coragem para continuar. Eu quero continuar, por isso ela me deu coragem, E eu tive essa coragem e fiz de mim uma matéria imunda e jamais limpida de prazer. meu prazer me imundou e inundou-me nesse mar. de repente eu me via ja em baixo da agua, e olhava pra cima sem medo ou ansiedade. eu olhava pra cima, via o sol descer e virar lua la em baixo. e continuava olhando para cima, adimiando a supercifie e me despedindo dela sem medo ou choro. porque eu quis descer até morrer. eu desejei morrer, para de respirar e renascer. quis virar peixe. agora sou uma seria dormindo em baixo do mar. nao sei qual lugar é esse... se estou na lua ou no mar. não sei mesmo. não sei. e será que me falta coragem para perguntar se nome? acho que não, o que percebo mesmo é uma preguiça de voltar para a superficie, por mim eu ficaria aqui pra sempre. mas sei que esse desejo também é uma projeção que obdece ao delirio da impermeabilidade da matéria. nao há essa posisbilidade, preciso continuar a transmutação. e é com o amor e a coragem. Acho que o amor é a coragem de ser contraditoria. Penso no amor como um vento. Sinto o amor como uma ventania que me toca me faz ter arrepios. Acredito no amor como um ventania que espanta o medo. 
estou nun roncó. o quarto de cura virou meu quarto em são paulo.

sábado, 4 de abril de 2020

demorei três dias para digerir essa informação que a mulher da mata me disse, e aqui estou tentando dizer sobre aquilo que meu corpo precisa de uma vida inteira para digerir e transformar. Ela me disse da onde eu sou pra pra onde devo ir. Me avisou que naquela noite eu dormiria feito lua e acordaria como o sol. Era 6h da manhã e eu já estava de pé, deita em cima da cama ta tentando digerir a verdade que me foi relevada e profetizada. Já não sou humana, já não sei como sentir prazer da carne numa separação entre corpo físico e espiritual. Meu prazer sexual transformou-se em conteúdo para meus rituais, aprendi que minha masturbação é um culto à morte e à lembrança. Eu pedi por isso, e a verdade chegou: sou macumbeira, virei mãe de santos e santas. Ser mãe de mim é viver com a condição de responsabilidade por saber da verdade que me possibilita continuar viva. Essa semana eu descobri a verdade: não sou humana, já não sinto como gabriel era. Virei uma travesti mandingueira. Sim, eu morri. Morri a morte bantu, e quando encontrei essa Ninã Blanca, dançamos aguarradinha, gritamos uma com a outra, choramos juntas, ela me acolheu e eu neguei, ela insistiu e eu insistir junto. Justas entendemos que o beijo ali seria outra coisa. Meu corpo se transformou, meu beijo faz feitiço, e o que devo fazer aqui agora que ja não sou mais a mesma? O que desejo aqui? 
Sinto que preciso continuar alimentando o conteúdo que não há forma: os chakras superiores. Preciso alimentar esses mistérios que agora vejo com olhos abertos. 
Foi dificio digerir as inormações que meus mentores espirituais me passaram, porque esses guias me apresentaram a verdade. Foi dificil porque não pude ir pra mata, não pude ir na praia, não pude ir na cachoeira. Aqui onde moro em São Paulo, não há nada disso por perto. A dificuldade está em perceber essa distancia, e criar uma proximidade... que tem sido feita no plano astral. Mas preciso das plantas, preciso do toque e do cheiro. Agora sinto o peso da distancia.. minha tia tati sempre dizia: só damos valor quando perdemos. Eu perdir a vergonha e o medo, por isso estou dando um valor imensurável à essas vidas vegetais e minerais que agora estão longe de mim. É dificil, ta sendo dificil. Sei em meu corpo há terra, fogo, ar e agua, mas quero senti-los como se apresentam fora de mim na mata e no mar. 
Enfim, a yoga vai me ajudar a fazer morrer a saudades e entender que saudades não existe porque não há separação. Te amo.   

terça-feira, 17 de março de 2020

ano passado eu desejei encontrar vocês e aprendi que o que há são modos e fomas de me preparar para esse encontro com o inexistente e inesperado. E também: como sustentar esse encontro? 
Quando pela primeira vez encontrei uma travesti mãe de santo, a abracei sabendo da infecção... de nosso mutualismo sem interdependência ... 
Se tudo está em tudo é porque não existe separação na distancia, então o que tenho escolhido é  a intensidades de nossos encontros. 
A ansiedade que surge do medo de ser infectada por algumas vidas ( de todos os reinos ) é uma experiência de Tempo Cronológico e não é sempre que consigo assumir outra direção ou movimento que não seja esse: o pânico. Então tento não esquecer de como criar outra situação temporal enquanto estou em pânico. 
Quando saio nas ruas de São Paulo minha garganta as vezes fecha porque meu corpo físico fica com medo de respirar e ser infectada; mas já estou sendo, por isso continuo viva. 
Acredito que essa contração muscular é aglutinação de energia... então uso essa concentração vital laríngea para entrar no Tempo Espiralado de Exú e Exua que me ensinam: a vida é cíclica, aceite, escolha, transforme, descanse... 

a interdependência prevê uma separação e eu não acredito na separação. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Exú não é diabo e se tiver que ser, será. Por isso digo: Eu não sou mulher, mas se tiver que fingir, farei. 
Eu decidi lançar esse ponto na quarta feira de cinzas, porque aprendi como é gostoso morrer e agora ta dificil sim assumir essa nova vida. 
Aprendo muito com minha PombaGira sobre desejo, olhares, amores e giros... 
Aprendo com exuas e com minhas travestis sobre minha boca e nossos olhos. Como olhar... quando sorrir... 
Eu sempre ouvi pontos imaginando encontrar uma PombaGira travesti: um desejo que me move e me assusta. Então percebi que estava virando esse desejo: uma travesti que sabe amar PombaGiras sem cristaliza-las na imagem do corpo que só dança, bebe, fuma e gargalha. Porque tudo isso acontece na incorporação, é o que nossos olhos  geralmente podem ver. Mas vejo outras coisas, outros movimentos de PombaGiras... 
Assim como vejo outro movimentos de trava... outros além daqueles que seus olhos conseguem ver e desejar e capturar <3 <3 <3 

Tenho conseguido, com muitos esforços, construir nossa ancestralidade sodomita. Pra quem não sabe, "sodomita" era o nome que os colonizadores nos davam. Xica Manicongo foi chamada assim, hoje em dia ela seria chamada de travesti. Não ousem chama-la de não binaria ou de mulher-trans! É pouco, e por enquanto é TRAVESTI ou QUIMBANDA o melhor caminho a ser tomado!

Ponto de travesti
Arreda Homem

Arreda homem que ai vem mulher
Arreda homem que ai vem mulher
Ela é a trava preta, rainha do cabaré
Saravá às suas tetas
que nasceram quando nós decidimos transmutar a carne e incorporar as almas das travestis que nos querem lembrando da vida, da malandragem, da fé e da coragem.

Sete homens vem na frente, pra dizer quem ela é
São apenas gays medíocres e medrosos
que não sabem e nem devem entender como fazemos para respirar abaixo do fogo de nosso cu. Aqui embaixo já é água,  mar. kalunga. Musoni.
Por isso somos as gatas que sobrevivem às marés.

Eu caminhava, pela alta madrugada
quando no clarão da lua eu vi uma gargalhada
Eu caminhava, junto com as negras travas
durante o clarão da lua demos varias gargalhadas
e com a boca cheia de tesão, prometemos ao silêncio:
saberemos nos cuidar enquanto sabemos te espancar
te matar

Linda negrona formosa, me diga quem você é
ela é dona no style, é a Rainha de fé
O mona diga seu nome, vamos juntar nosso axé
Somos as travas encantadas, que ele chama de mulher

O Maria Lacraia, se tu és uma rosa
que floresceu, sob um monte de espinhos
O Dirceu bixa, se tu é uma rosa, uma rosa formosa
Bia Kalutor, abra meus caminhos
Bia Kalutor, abra nossos caminhos

LAROYÊ
Abra nossos caminhos e nos proteja

amigas, que Exú e suas Meninas nos guie e nos salve.
obrigada até aqui
e pelo o que já foi
e por o que ainda estar por vim

<3 <3 <3




sábado, 15 de fevereiro de 2020

[00:01, 14/02/2020] roger gill: EU não sei dimensionar a sua existência. Eu não posso e não consigo. Percebi que não preciso porque me atravessa. Me atravessa porque sou o vento, sou a água… mas hoje fui sombra. Me atrevessa porque você foi, é e sempre será o que a luz do sol é para as plantas. A fotossíntese é o símbolo máximo do amor. Porque você me escolheu? Como Cristo por mim, deu-me uma prova de amor. Mas um amor puro, tão profano que só poderia estar dentro de uma capela. Uma capela não, um terreiro. Um terreiro pra eu ficar as minhas raízes e te retribuir algum dia o tamanho da sua luz. É muito louco isso de vidas passadas. Ano passado já faz anos luz… talvez seja esse o meu deslocamento… sentir que o sol sempre nasce e se poe. Mas ele não morre nunca. Você nunca morre cast. Mas eu sei que eu morro sempre que eu lembro que eu posso morrer. Mas eu morro só pra ressuscitar, e olhar pra essa sua cara de pombo gira rindo pra mim. Pra gargalhar o deboche de poder ressuscitar sem morrer. Mas tendo morrido umas mil vidas. Isso de morrer é coisa de caveira. E que o pó de minha ossada te encontre em são Paulo. Se você ouvir uma gargalhada quando chegar lá é uma lembrança minha. Mas tem que ser no por ou no nascer do sol, não gosto de ficar na rua de noite. Mas eu aprendi agora que você me tirou da cova.
[00:08, 14/02/2020] roger gill: Eu amo vocês nessa, nas passadas e nas futuras.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

minha cabocla tem me ensinado sobre fitoenergetica, e quando tento enxergar-la ( a energia das plantas ) lembro que meu corpo carnal precisa está um pouco mais sincronizado com meu corpo sutil. lembro disso enquanto escrevo e percebo que enquanto tento lembrar de como fazer meus dois corpos dançarem experiêncio uma frequência dessa sincronia que acontece sempre que penso sobre ela. 

é complicado dizer, então escreverei de olhos fechados. pronto tentarei escrever com meus olhos sutis. é falar sobre o amor, um amor que aprendi lendo as mãos de Roger. lendo sua mão e ouvindo sua voz de locutor. Acredito que nossa amizade me ensina sobre incorporação, porque a fitoenergética é isso: um encontro e a sustentação desse Tempo de Cura que se inaugura quando essas vidas sincronizam, de modo efêmero, suas existências. Quando abraço Roger, sinto um calor que me lembra a aroeira, mas nosso corpos animais também podem juntos produzir uma temperatura de acalento que me faz lembrar de quando minha cabeça é tomada pelas Rosas Brancas e Manjericões. 

Comecei esse texto com essa vontade de dizer sobre plantas e Roger. Uma vez eu olhei pra Roger e vi a beleza de seu corpo sutil. Me assustei, era muito bonito. Aquele dia ele estava muito bonito, e durante aquele momento eu não consegui parar de olhar. Estava sem camisa, mas eu não senti desejo sexual, e novamente me assustei; dessa vez, comigo mesma. Ja me assustei com as plantas, geralmente suas raízes me deixam avoada. 

É isso, enxergar Roger com meus olhos de vento foi assustador e delicioso porque lembrei que consigo voar sempre que me permito ser conduzida por raizes ou folhas das plantas que minha avó Julite cria. Quero acabar por aqui, dizendo que amo meu terceiro olho, sou grata pela amizade e reencontro com Roger e amo as plantas que vovó cria desde sempre. 

isso é uma arvora mas poderia ser você, amiga <3 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

mergulhar na profundidade no oceano nunca me foi tão dificil. Enquanto eu vivia na Ilha de Vitória, adorava mergulhar. se possivel ia na praia toda semana... teve tempos que eu passei horas na Beira Mar desejando esses mergulhos que hoje tenho feito. ai agora sai da ilha e tenho construido minha diaspora. como Renato Santos me disse uma vez: agora você esta fazendo a boa diáspora. Sim, estou tendo a oportuinidade da escolha.ou de fazer outras escolhas. e as escolhas que tenho feito, são feitas aqui de baixo. esses dias lembrei do Tempo Bantu, estou vivendo a Luvemba.
vou começar dizendo em silêncio que: se eu pudesse continuaria falando calada. Eu tenho olhado com olhos fechados para a fumaça do Quarto Fumê e enxergado a luz ultra violeta. E quando a vejo, entendo esse meu cansaço de ser vista, que é porque quando me veem pedem para meus olhos de travesti enxergarem a Cura para os seus de viado preguiçoso e medroso. 

Mas sou canceriana com muitos planetas em gêmeos, então me perco no desejo de dizer sobre o amor. Amo Rodrigo, Marcela e agora Jade e Rainha. As vezes esqueço como me amar e respirar. A disforia de gênero é um vicio racista, e teve uma gira que exú gargalhou de minha cara e disse: nem elas acreditam no que falam, você precisa acreditar em você! 

Então eu disse: não me interesso em ficar zigzagueando de homem pra mulher. Enquanto isso ja virei trava e tem uns meses que meu corpo pede vários banhos durante a semana. Ai lavo minha cabeça mas não posso esquecer de limpar meu chakra Anahata. Entendi que disforia é um mal olhado porque é um olhar racista cisgênero.  

Então enquanto se importam em conquistar a branquitude para ter visibilidade, faço yoga com vontade de voltar a fazer capoeira, para desaprender o desejo de representar e ser representada. E uso óleo essencial de gerânio. Ai vou me lembrando.... 


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Transicionei quando subi e desci a Fonte Grande. Transmutei de flor para terra quando mergulhei nas luas e aceitei: hoje sou benzendeira porque virei travesti e antes fui sodomita porque sabia prevê o futuro.Virei travesti quando acessei minha ancestralidade sodomita, e dobrei o Tempo colonial que nunca me fez sua. A espiritualidade travesti não existe, porque esse não é nosso nome. Travesti não se traduz e travesti já é uma tradução. Travestilidade e espiritualidade são traduções coloniais de nossas transmutações. Ou com nosso alfabeto conseguimos construir linguagens de fuga? 

Sou macumbeira porque sou negra. E perambulo na luz negra, porque sou travesti. 

Escrevo em português para dizer que macumba ta no meu sangue, e se no meu sangue há mar é porque sou rio que afunda e chorou de alegria quando eu morri. Para a alquimia, transmutação é a conversão de um elemento químico em outro. Somos alquimistas porque de corpo-flor transicionamos para ametista, e na tradução colonial viramos apenas travestis. 

A macumbaria é uma encruzilhada feita com Química, Física, Biologia, Medicina, Semiótica, Arte, , Astrologia, Filosofia, Metalurgia, Geologia e Matemática. E a minha transmutação foi quando derreti no encontro de fogos, e nesse fogaréu beijei minha pomba gira e a disse: muitas gracias, lembrei que também sou éter, virei trava. 

Porque foi incorporando que vivi o Tempo espiralado, e deixei minha matéria ser dilacerada pela rapidez de Gêmeos e ventania e Oya. Eu morri mas ainda não fiz o que devo fazer. Porque eu mergulhei bem fundo e gozei tendo medo. Eu não aguento mais essa década. Em minha garganta tem um choro preso num corpo que não é mais meu. Essa  noite vou girar até morrer. Morrerei lembrando de tudo, e voltarei para buscar os estantes que não vivi por ter medo de amar. Te amo meu preto, 

eu estou transmutando. porque entrei na macumba e transmutei antes de transicionar. ou enquanto transicionava.  porque esse Mundo me disse que eu estava transicionado antes de eu ter coragem de assumir que sim estava indo a um outro outro lugar. mas quando a tive - a coragem - eu abandonei o lugar da transsexualidade que nunca me permitiram ficar e reencontrei meu corpo fora da cognição cisgênera que não alcança a frequência que a transmutação travesti produz. é um som distante. mas que irrita porque se faz perto, e essa distancia pequena é necessária para a existência da cisgeneridade.

tenho tido uma vontade enorme de ter peitos. peitos tem sido a transmutação. sonho com peitos grandes e pequenos mas não sei dimensiona-los de fato. lembro que preciso experimentar para consegui entender. então tenho estudado hormônios. hominização. o que é o hormônio em nosso corpo carnal? sei e sinto que o bloqueador enfraquece minha relação com Exú. Pois bloquear a testoterona de meu corpo é diminuir a libido. sim, exu não é só libido, mas pra mim tem sido muito disso.

sinto meu corpo com fome de modificação. então vou pro cabelo. vou pra cabeça. vou pro ori. Modificações carnais. dessa frequencia encarnada.

na fonte grande eu não sabia que era negra. gostava de pau, e não tinha problemas com buceta. não conhecia a disforia nem o racismo. a disforia é racista. o racismo também é uma disforia.
e quando me aproximo de outros mundos me sinto melhor. Mundo vegetal e mineral e animal.
É isso. estou me equilibrando. conectar-me aos mundos animais, vegetais e minerais.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A dor da morte é azul e a vida parece vermelha. Eu sou uma trava negra, mas quero ser roxa. Mistura morrer e viver, que é a transmutação. Transmutar é a conversão de um elemento químico a outro. E na umbanda, aprendi com caboclos e sereias sobre seus corpos híbridos de mar, terra e ar. Também estou trabalhando nas encruzas para continuar me transmutando, por isso torno-me contraditória na colonialidade. Sempre peço calma à Oxalá e inteligência aos marujos para viver a travestilidade sem ser refém dessa identidade, ai eles me ensinam que devo preparar meu corpo. Ficar de preceito na macumba é foda mas aprendo pra crlh. Então o que tenho feito é viver no tempo do meu corpo transmutado, e as vezes no tempo identitário quando preciso ganhar dinheiro para fazer aqué. Transmutar é isso: negociações entre morte e vida. 

sábado, 30 de novembro de 2019

Sem aqué não há axé.  Existe uma diferença  entre dinheiro e aqué.  Quem cata de pajubá  vai entender.  Dinheiro é ferramenta.  Aqué é mistério.  E vocês amam roubar  comprando ne.  Vocês compram arte  de bixa e não sabem  nada de travesti.  Galerias querem travas sem corpo de bixa.


Não há mal que possa derrubar um coração carregado de fé. A fé e o amor ao sagrado feminino de merda. Faz com que possamos respirar embaixo d'água. Nunca v viver é emergir no corpo. Nunca somos humanas.e antes de sermos sereias, somos água.

sábado, 2 de novembro de 2019

amada, o livro está em maosss e eh uma preciosidade
sempre sinto que câncer é a matrona da magia, por ser o primeiro movimento da água, a primeira água a brotar, e por ser a água a alma, câncer é como a força que introduz alma na matéria, vc é canceriana né?

Oi, Castiel, só hoje o livro chegou. Acho que os correios devem estar com algum problema. Muito obrigada! Comecei a ler e, sem perceber, quando vi, estava respirando no compasso da sua escrita-fluxo, na dimensão tempo dela. Respirar e comungar é cura sim. Integro uma coletiva feminina, a Rebellium Coletiva, e quero seu livro se espraie por aqui. 
Grande abraço


domingo, 1 de setembro de 2019

la do outro lado é o Morro da Piedade.
La em baixo é o Centro. Aqui já fui Gabriel. Hoje voltei e desci e subi e deitei e sentei. Sou Castiel agora. A boca da mata me falou pra continuar na mata. Me ensinou sobre coragem.... e eu fiquei em silencio e continuei ouvindo e respirando feito folha de pitanga. Sou Castiel, e antes fui o vento. Hoje sou mistério. amanha serei um segredo.